sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

ELTON JOHN E OS ADVÉRBIOS DO MUNDO NOVO



Um pequeno ensaio sobre o velho Elton John e os advérbios do mundo novo

Reinaldo Azevedo

Vou falar um pouco de Elton John além de Elton John. É que não sou especialista em rock ou, mais amplamente, em música. Não sou especialista em nada. Uma vez perguntaram a Umberto Eco com que personagem de O Nome da Rosa ele mais se identificava. Ele deu uma resposta excelente: “Com os advérbios”. O advérbio é a palavra da modulação, do tom, do modo. Não chega a ser, como diria aquele, nem sujeito nem objeto substanciais. Um idiota da objetividade poderia indagar qual é o fato contido num advérbio e concluir, então, que advérbios são desnecessários. Não sou Eco, mas acho que as palavras de apoio é que distinguem a civilização da barbárie. Nos substantivos factuais, todos querem o bem da humanidade. Mas de que modo pretendem alcançá-lo? Calma, leitor amigo. Falarei de Elton John, eu juro.
O advérbio é importante para o pensamento. A grande questão proposta por Maquiavel é essencialmente adverbial: os fins realmente justificam os meios? Tio Rei acha que não. Tio Rei, nesse sentido, é um tanto antimaquiavélico e acredita que os meios qualificam os fins. Reparem que há uma diferença radical de princípio. Se o fim for, por exemplo, o bem da humanidade, pouco importa como se chegue lá? Edmund Wilson lembrou em ensaio que Marx vivia falando na “humanidade”. Se alguém indagasse ao cara o que ele pretendia, não teria dúvida: a nossa libertação. Stálin não era diferente. Até Tarso Genro, redigindo aquela estrovenga que flerta com o terror e se colocando como corte revisora da Justiça italiana, deve acreditar que produz luzes. O propósito de todo homem — quase ninguém realiza o seu — acaba tendo menos importância do que o que se vai construindo na trajetória para alcançá-lo.
E o leitor, então, pode saltar da nossa esfera de aparente subjetividade adverbial para os fatos: o que Marx, Stálin ou Tarso Genro produziram na trajetória? Lembrem-se sempre, leitores, de indagar quais são os meios, os modos. Os propósitos dos radicais palestinos são justos, certo? Afinal, merecem ter a sua terra, não? Mas e os meios? O fim os justifica, ou os meios estão qualificando os fins? Questões, questões, questões...Se alguém me pedisse para escolher — não sei por que alguém pediria tal coisa, mas lá vai... — os dois melhores versos da poesia moderna, seriam estes, de Auden (1907-1973):
“And the crack in the tea-cup opens
A lane to the land of the dead"
“A fenda na xícara de chá/ abre uma vereda para a terra dos mortos”.
Num dos textos que fiz para VEJA, registrei: “Comentando esses mesmos versos num texto da década de 70, o jornalista Paulo Francis (1930-1997) observou que a xícara de chá representava a velha ordem do Império Britânico e de suas classes dominantes. Trincada a xícara (um mundo, então, que desaparecia), abriu-se caminho para as tragédias das duas grandes guerras."
A grande poesia, entre outras exigências, concentra o máximo possível no mínimo possível. O modo, na poesia, é fundamental! Eis aí.
Nesta madrugada, de volta do show de Elton John, observei que ele é de um tempo em que “havia alguma esperança de que a fenda na xícara de chá não abrisse uma vereda rumo à terra dos mortos”. E deixei para mais tarde — agora — algum esclarecimento. Ou mais complicações, é bem provável.
Vindo lá do século passado, do século das duas grandes guerras, o roqueiro que já está com um pé na lenda encarna as ilusões daquilo que as esquerdas denunciavam, então, ser a “indústria cultural”. Era um papo furadíssimo esse, mas elas estavam ali, a pregar, como é mesmo?, “resistência” e a falar em nome da cultura dos “países periféricos”. Elton John ou qualquer outro da “indústria cultural” seriam parte do “lixo ocidental”. A apologia da marginalidade tinha lá seu espaço e até chegou a ser tragada, “como mercadoria”, pela... indústria cultural!!! A despeito da gritaria dos apocalípticos, havia as “ilusões” de Elton e dos integrados.
E o que elas diziam? No mundo que havia vencido duas guerras, eles apostavam, tivessem ou não consciência disso, nos dramas individuais ou numa rebeldia bem-comportada, com o seu quezinho de afronta ao sistema, mas que tinha clareza de que só poderia existir contando com o regime de liberdades que aquela rebeldia contestava em busca de mais liberdade. Ontem, enquanto Elton cantava, um painel exibia algumas imagens que, vejam só, eram ditas “psicodélicas” (Deus meu!!!) nesse tempo que já foi. Durante “Bennie and de jets”, por exemplo, imagens quase (sic) digitalizadas de “jovens muito loucos, cara...” eram exibidas. Durante “Sorry seems to be the hardest word” (tá, eu confesso, eu adoro essa música, e a Barbara Gancia também... Pronto: dedurei), painel apagado, foco no cantor e no piano, dores de amores... As únicas que de fato importam.
Cessa aqui este pequeno ensaio sobre advérbios de modo.
*Roubei a foto que ilustra este texto do blog da Barbara Gancia, que dá detalhes do show.
***Leia o texto completo em http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/

Um comentário:

Robson Vianna disse...

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